quinta-feira, 16 de agosto de 2012

HA ESPIRITOS?




                              1. A duvida concernente à existência dos Espíritos tem por causa primeira a ignorância da sua verdadeira natureza. Geralmente, são imaginados como seres a parte da criação, e cuja necessidade não esta demonstrada. Muitos não os conhecem senão pelos contos fantásticos com que foram embalados, mais ou menos como se conhece a historia pelos romances; sem indagar se esses contos, apartados dos acessórios ridículos, repousam sobre um fundo de verdade, só o lado absurdo os impressiona; não se dando ao trabalho de tirar a casca amarga para descobrir a amêndoa, rejeitam o todo, como fazem, na religião, aqueles que, chocados com certos abusos, confundem tudo na mesma reprovação. 

                              Qualquer que seja a idéia que se faca dos Espíritos, essa crença esta necessariamente fundada na existência de um principio inteligente fora da matéria e é incompatível com a negação absoluta deste principio. Tomamos, pois, nosso ponto de partida na existência, sobrevivência e individualidade da alma, da qual o ESPIRITUALISMO e a demonstração teórica e dogmática, e o ESPIRITISMO a demonstração patente. Façamos, por um instante, abstração das manifestações propriamente ditas, e raciocinando por indução, vejamos a quais conseqüências chegaremos. 


                               2. Desde o momento que se admite a existência da alma e sua individualidade apos a morte, e preciso admitir também: 1., que ela e de uma natureza diferente da do corpo, uma vez que separada dele  não lhe tem mais as propriedades; 2., que goza da consciência de si mesma, uma vez que se lhe atribui a alegria ou o sofrimento; de outro modo seria um ser inerte, e o mesmo valeria para nos não te. Isto admitido, a alma vai para alguma parte; em que se torna ela e aonde vai? Segundo a crença comum ela vai para o céu ou o inferno; mas onde estão o céu e o inferno? Dizia-se antigamente que o céu estava em cima e o inferno embaixo; mas o que é o alto e o baixo no Universo, desde que se conhece a redondeza da Terra, o movimento dos astros que faz com que o alto em um momento dado torna-se o baixo em doze horas, o infinito do espaço no qual o olhar mergulha em distancias incomensuráveis? E verdade que, por lugares baixos, se entende também as profundezas da Terra; mas em que se tornaram essas profundezas desde que foram pesquisadas pela Geologia? Em que se tornaram, igualmente, essas esferas concêntricas chamadas céu de fogo, céu de estrelas, desde que se sabe que a Terra não e o centro dos mundos, que nosso Sol, ele mesmo, não e senão um dos milhões de sois que brilham no espaço, sendo cada um o centro de um turbilhão planetário? Em que se tornou a importância da Terra, perdida nessa imensidade? Por qual privilegio injustificável esse grão de areia imperceptível, que não se distingue nem por seu volume nem por sua posição, nem por um papel particular, seria o único povoado por seres racionais? A razão se recusa a admitir essa inutilidade do Infinito, e tudo nos diz que esses mundos são habitados. Se são povoados, eles fornecem, pois, seu continente ao mundo das almas, já que a Astronomia e a Geologia destruíram as moradas que lhes eram assinaladas, e, sobretudo depois que a teoria tão racional da pluralidade dos mundos as multiplicou ao infinito? A doutrina da localização das almas, não podendo estar de acordo com os dados da ciência, uma outra doutrina mais lógica lhes assinala por domínio, não um lugar determinado e circunscrito, mas o espaço universal: e todo um mundo invisível no meio do qual vivemos, que nos rodeia e nos acotovela sem cessar. Ha. nisso uma impossibilidade, alguma coisa que repugne a razão? De modo algum; tudo nos diz, ao contrario, que não pode ser de outra forma. Mas, então, em que se tornam as penas e as recompensas futuras, se lhes tirais os lugares especiais? Notai que  a incredulidade, com respeito a essas penas e recompensas, esta geralmente provocada porque se as apresenta em condições inadmissíveis; mas dizei, em lugar disso, que as almas tiram sua felicidade ou sua infelicidade de si mesmas; que sua sorte esta subordinada ao seu estado moral e que a reunião das almas simpáticas e boas e uma fonte de felicidade; que segundo seu grau de depuração,  penetram e entrevêem as coisas que se apagam diante das almas grosseiras, e todo mundo  o compreendera sem dificuldades; dizei ainda que as almas não chegam ao grau supremo senão pelos esforços que fazem por se melhorarem e depois de uma serie de provas que se prestam a sua depuração; que os anjos são as almas que alcançaram o ultimo degrau, o qual todos podem atingir com a boa vontade;  que os anjos são os mensageiros de DEUS, encarregados de velar pela execução dos seus desígnios em todo o Universo, que são felizes com suas missões gloriosas, e dareis a sua felicidade um fim mais útil e mais atraente do que aquele de uma contemplação perpetua que não seria outra coisa  senão uma inutilidade perpetua; dizei enfim, que os demônios não são senão as almas dos maus ainda não depurados, mas que podem chegar a ser como as outras, e isso parecera mais conforme a justiça e a bondade de DEUS do que a doutrina de seres criados para o mal e perpetuamente devotados ao mal. Ainda uma vez, eis ai o que a razão mais severa, a lógica mais rigorosa, o bom-senso, em uma palavra, podem admitir. 

                                Ora, essas almas que povoam o espaço são precisamente o que se chamam ESPIRITOS; os Espíritos não são, pois, outra coisa senão as almas dos homens despojadas do seu envoltório corporal. Se os Espíritos fossem seres a parte, sua existência seria hipotética; mas se admite que ha. almas, e preciso também admitir os Espíritos que não são senão as almas; se se admite que as almas estejam por toda parte, e preciso admitir igualmente que os Espíritos estão por toda parte. Não se poderia, pois, negar a existência dos Espíritos sem negar a das almas. 


                                 3. Isso, e verdade, não e senão uma teoria mais racional do que a outra; mas já e muito que uma teoria não contradiga nem a razão nem a ciência; se, alem do mais, ela esta corroborada pelos fatos, tem para si a sanção do raciocínio e da experiência. Esses fatos, nos os encontramos no fenômeno das manifestações espíritas, que são, assim, a prova patente da existência e da sobrevivência da alma. Mas, entre muitas pessoas, ai se detém à crença; admitem bem a existência da alma e, por conseguinte a dos Espíritos, mas negam a possibilidade de se comunicar com eles, pela razão, dizem, de que seres imateriais não podem agir sobre a matéria. Essa duvida esta fundada na ignorância da verdadeira natureza dos Espíritos, da qual se faz, geralmente, uma idéia muito falsa, porque são imaginados erradamente como seres abstratos, vagos e indefinidos, o que não são. 


                                  Imaginemos primeiro o Espírito em sua união com o corpo; o Espírito e o ser principal, já que e o ser PENSANTE e SOBREVIVENTE; o corpo, pois, não e senão um acessório do Espírito, um envoltório, uma veste que ele deixa quando estragada. Alem desse envoltório material, o Espírito tem um segundo, semi-material, que o une ao primeiro; na morte, o Espírito se despoja deste, mas não do segundo ao qual damos o nome de PERISPIRITO. Esse envoltório semi-material que afeta a forma humana, constitui para ele um corpo fluídico, vaporoso, mas que, por nos ser invisível em seu estado normal, não deixa de possuir algumas das propriedades da matéria. O Espírito não e, pois, um ponto, uma abstração, mas um ser limitado e circunscrito, ao qual não falta senão ser visível e palpável para se assemelhar aos seres humanos. Por que, pois, não agiria sobre a matéria? Por que seu corpo e fluídico? Mas não e entre os fluidos, os mais rarefeitos, aqueles que se consideram como imponderáveis, a eletricidade, por exemplo, que o homem acha seus mais poderosos motores? E que a luz imponderável não exerce uma ação química sobre a matéria ponderável? Nos não conhecemos a natureza intima do PERISPIRITO; mas supondo-o formado de matéria elétrica, ou outra tão sutil, por que não teria a mesma propriedade estando dirigido por uma vontade?


                                 4. A existência da alma e a de Deus, que são a conseqüência uma da outra, sendo à base de todo o edifício, antes de iniciar alguma discussão espírita, importa se assegurar de que o interlocutor admite esta base. Se a estas questões: 

                                 Credes em Deus?

                                 Credes ter uma alma?

                                 Credes na sobrevivência da alma apos a morte? - ele responde negativamente, ou mesmo se diz simplesmente: EU NAO SEI, GOSTARIA QUE FOSSE ASSIM, MA NAO ESTOU SEGURO DISSO, o que, o mais frequentemente equivale a uma negação polida, disfarçada sob uma forma menos cortante para evitar ferir, muito bruscamente, o que ele chama de preconceitos respeitáveis; seria tão inútil ir alem quanto tentar demonstrar as propriedades da luz a um cego que não admitisse a luz; porque, em definitivo, as manifestações espíritas não são outras coisas senão os efeitos das propriedades da alma; com estas ha. uma ordem diferente de idéias a seguir, se não se quer perder tempo. 

                                 Se a base esta admitida, não a titulo de PROBABILIDADE, mas como coisa averiguada, incontestável, a existência dos Espíritos dela decorre muito naturalmente.


                                 5. Resta agora a questão de saber se o Espírito pode se comunicar com o homem, quer dizer, se pode trocar pensamentos com ele. E por que não? O que e o homem senão o Espírito aprisionado em um corpo? Por que o Espírito livre não poderia se comunicar com o Espírito cativo, como o homem livre com o que está aprisionado? Desde que admitais a sobrevivência da alma, e racional não admitir a sobrevivência das afeições? Uma vez que as almas estão por toda parte, nao e natural pensar que a de um ser que nos amou durante a vida venha para perto de nos, que deseja se comunicar conosco e que se sirva, para isso, dos meios que estão a sua disposição? Durante sua vida nao agia sobre a matéria do seu corpo? Nao era ela quem lhe dirigia os movimentos? Por que, pois, apos a morte, de acordo com um outro  Espírito ligado a um corpo, nao emprestaria esse corpo vivo para manifestar seu pensamento, como um mudo pode se servir de um falante para se fazer compreender?


                                  6. Façamos, por um instante, abstração dos fatos que, para nos, tornam a coisa incontestável; admitamo-la a titulo de simples hipótese; pecamos que os incrédulos nos provem nao por simples negação, porque sua opinião pessoal nao pode fazer lei, mas por razoes peremptórias, que isso nao e possível. Nós nos colocamos no seu terreno, e uma vez que querem apreciar os fatos espíritas com a ajuda das leis da matéria, que tomem, pois, nesse arsenal, alguma demonstração matemática, física, química, mecânica, fisiológica e provem por "a" mais "b", sempre partindo do principio da existência e da sobrevivência da alma:

                                  1. Que o ser que pensa em nós durante a vida, nao deve mais pensar apos a morte;

                                  2. Que, se pensa, nao deve mais pensar naqueles que amou;

                                  3. Que se pensa naqueles que amou, nao deve mais querer se comunicar com eles;

                                  4. Que, se pode estar por toda parte, nao pode estar ao nosso lado;

                                  5. Que, se esta ao nosso lado, nao pode se comunicar conosco;

                                  6. Que por seu corpo fluídico nao pode agir sobre a matéria inerte;

                                  7. Que, se pode agir sobre a matéria inerte, nao pode agir sobre um ser animado;

                                  8. Que, se pode agir sobre um ser animado, nao pode dirigir sua mão para fazê-lo escrever;

                                  9. Que, podendo fazê-lo escrever, nao pode responder as suas perguntas e transmitir-lhe seu pensamento.


                                  Quando os adversários do Espiritismo nos tiverem demonstrado que isso não e possível, por razão estão patentes como aquelas pelas quais Galileu demonstrou que nao e o Sol que gira ao redor da Terra, então poderemos dizer que suas duvidas são fundadas; infelizmente, ate este dia, toda a sua argumentação se resume nestas palavras: EU NAO CREIO, PORTANTO, ISSO E IMPOSSIVEL. Eles nos dirão, sem duvida, que cabe a nos provar a realidade das manifestações; nos as provamos pelos fatos e pelo raciocínio; se eles não admitem nem um nem outro, se negam o que vêem, cabe a eles provarem que o nosso raciocínio e falso e que os fatos são impossíveis.

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