quinta-feira, 26 de setembro de 2013

Dar ou não dar? Eis a questão da caridade.


  A grande questão da caridade dos bens materiais ainda é alvo de narizes torcidos e caras feias para muitas pessoas. Poucos são os que doariam seus bens da mesma forma e com a mesma vontade que facilmente oferecem um ombro amigo. Isso se deve ao bicho corrosivo do apego material.

  Ontem, fui abençoado com uma linda oportunidade a qual se tornou o motivo desta postagem. Ao ir almoçar, pois compro marmitex todos os dias no restaurante na rua de casa, fui abordado por um rapaz, de trajes sujos e gastos, de aparência envelhecida por causa da pouca higiene e de sua pobreza, figura clara dos maus tratos da diferença no equilíbrio dos bens materiais do mundo. O rapaz então me pediu que lhe comprasse uma marmitex, pois estava com fome. Ele carregava algumas garrafas plásticas que coletava para ganhar dinheiro com reciclagem.

  No momento em que fui abordado, não estava com dinheiro e nem com o cartão de crédito, pois deixo o almoço pago para a semana toda justamente para não ficar carregando dinheiro comigo. Tive que declinar aquela valiosa oportunidade de caridade.

  Retornei para meu lar, na mesma rua, almocei no conforto, uma comida saborosa, quentinha e até comi um bombom de sobremesa... Mas a consciência do verdadeiro cristão não lhe deixa em paz enquanto este não compreende a oportunidade perdida. Aquela imagem do pobre homem me pedindo por comida não saía da cabeça, então peguei o dinheiro e saí a rua para ver se ainda encontrava o homem e lá estava ele coletando suas garrafas. Ofertei-lhe então o almoço e fomos juntos comprar.

  Demonstrando grande alegria, o homem escolheu o que queria comer e feliz agradeceu pelo almoço. Meu coração se derramou em lágrimas e a consciência se tranquilizou, pois lembrei-me do quanto Deus tem me ofertado e o quanto aquele pobre homem tinha em falta em sua vida.

  Mas a grande lição não veio somente desse ato, pois é comum eu auxiliar alguém com alimentos, roupas ou amor. A situação que me trouxe ao texto foi a de hoje, pois ao retornar ao restaurante um dia após o ocorrido, uma das atendentes me disse: "Amigo, você deu aquela marmitex por vontade própria ou porque ele pediu?"

  Em meus pensamentos veio a questão: "que diferença faria?" Para mim bastava auxiliar aquele homem, mas gentilmente lhe respondi que o fizera de vontade própria, indicando que mesmo tendo me pedido o almoço, fora eu quem decidi lhe dar.

  A gentil atendente então me disse para eu tomar cuidado, pois aquele homem, em outra ocasião, recebera um almoço e no mesmo dia fora visto pedindo almoço em outro restaurante e o dono do restaurante então lhe disse: "Você tem fome hein?".

  Naquele instante pensei comigo "este é o falso caridoso, pois faz a caridade e espera o retorno". Mas compreendi que nem todos estão prontos para seguir os passos de Jesus e que eu não deveria julgar aquele dono do restaurante, pois ele não sabia o que fazia, apenas dava mais valor ao seus bens do que à oportunidade de amar o próximo.

  Tome cuidado, dizia a atendente, porque ele pode te roubar, agente não sabe né?

  Então sorri e procurei não retrucar o que ela me disse, o melhor seria eu calmamente analisar a situação, a ação que eu realizara e o que ela me contara. Cheguei a seguinte conclusão com base no que Jesus faria se estivesse em meu lugar:

  O Cristo sempre curou os coxos e enfermos que lhe aproximavam suplicando ajuda. Após cada cura, Jesus humildemente dizia ao pobre irmão agora curado: Tua fé te curou, vai e não pequeis mais, para que não tornes a ficar doente!

  Essa frase nos diz tudo, pois Jesus curava as pessoas de boa vontade, com amor, mas no seu íntimo, o sábio Mestre sabia o motivo daquela doença e sabia que grande parte dos curados seriam ainda ingratos ao seu gesto benevolente e tornariam ao mau caminho, por isso a advertência após cada cura, tentando mostrar ao pobre irmão que era ele mesmo o causador do seu sofrimento e que hoje estava curado, mas se tornasse a pecar poderia adoecer novamente.

  Eis aqui a minha reflexão sobre isso, eu auxiliara um faminto, sem me importar se ele iria comer ou se ao virar a esquina ele iria jogar fora aquela comida. Sem me importar se ele iria trabalhar para tentar conquistar o seu alimento de amanhã ou se persistiria pedindo aos outros, o que seria mais fácil. Não cabe a mim, assim como não cabia a Jesus, julgar o seu próximo, mas sim fazer-lhe todo o bem possível, sem esperar retorno algum.

  O julgamento cabe apenas a Deus, pois Deus sabe do íntimo do meu coração e da minha vontade em ajudar os outros, assim como sabe do íntimo do coração dos que eu ajudei e se eles agirem com ingratidão, infelizmente permanecerão no estado em que estavam antes, no caso deste homem, passando fome.

  Os bens materiais que possuímos na Terra são todos temporários e vêm como empréstimo para que sabiamente os utilizemos, não somente para nós, mas para que aprendamos a compartilhar. Eis que um almoço não me faria falta alguma, eu poderia, até mesmo, deixar de almoçar para dar de comer aquele homem e garanto que meu coração se alegraria mais ainda.

  Acredito fielmente que Jesus curasse as pessoas, não uma, mas quantas vezes fossem precisas, pois Ele nos ensinou a perdoarmos infintas vezes os erros que nossos irmãos cometem.

  Não existe nada melhor do que um coração acariciado pela nobreza da caridade com amor e uma consciência suave pela certeza do bem maior cumprido.

Nenhum comentário:

Postar um comentário