terça-feira, 24 de junho de 2014

Comparando-nos com os outros.


  Em um mundo onde a competição toma conta das relações, os modelos são sempre superlativos.
  Precisamos ser os mais rápidos, desejamos ser os mais belos, lutamos para ser os mais fortes.
  Comparamo-nos o tempo inteiro, e parece que a perfeição está sempre no outro.
  No corpo da apresentadora de TV, na grande demonstração de afeto da esposa do vizinho, no grande emprego conseguido pelo ex-colega da faculdade, etc.
  O escritor e educador Rubem Alves vê na comparação um exercício dos olhos:
  Vejo-me - estou feliz. Vejo o outro. Vejo-me nos olhos do outro - ele tem mais do que eu.
  Vendo-me nos olhos dos outros eu me sinto humilhado. Tenho menos. Sou menos.
  O autor narra que ele mesmo só descobriu que era pobre quando deixou o interior de Minas para morar no Rio, e foi parar num colégio de cariocas ricos.
  Então, começou a se sentir diferente, falava com sotaque caipira, não pertencia ao mundo elegante dos colegas, e sentiu vergonha de sua pobreza.
  Até então, Rubem morava com uma família numa casa velha de pau-a-pique, numa fazenda emprestada.
  Diz ele: Eu sou muito ligado a esse passado, foi um período de grande pobreza, mas eu não sabia que era pobre.
  O sentimento da infelicidade nasce da comparação. Foi um momento de grande felicidade, um período sem dor. Só dor de dente, dor de espinho no pé.
*   *   *
  Baseados nisso tudo podemos questionar: Como não se comparar? Como viver sem referência alguma?
  Não seria possível, obviamente. A não ser que nos ilhássemos definitivamente - uma solução que traria uma centena de outras conseqüências negativas.
  Como lidar equilibradamente com tudo isso, então?
  Uma primeira idéia seria a de cuidar para que a competição não tome conta das relações, sejam elas afetivas, familiares ou profissionais.
  Se isso acontecer - e normalmente acontece - que tal transformar a competição em cooperação?
  Como? Percebendo que não estamos nas relações apenas para dar e receber, e sim para cooperar, construir um bem comum.
  Ver os outros como companheiros e não como adversários faz uma grande diferença.
  Uma segunda resolução seria buscar ver a vida do outro como ela realmente é, e não como julgamos que ela seja.
  Estamos num mundo de provas e expiações, onde os embates contra nossas imperfeições, ainda insistentes, são constantes. E essas pelejas não poupam ninguém.
  Todos temos conflitos, inseguranças, cometemos equívocos e sofremos as consequências do que plantamos.
  As leis maiores do Universo regem a vida de todos igualmente. Não há favorecidos nem desajudados por Deus.
  Ver a perfeição, a felicidade, apenas naquilo que não se tem ou no que os outros têm, é um tipo de comportamento que só gera insatisfação.
*   *   *
  Allan Kardec em seu O evangelho segundo o Espiritismo trouxe um esclarecimento especial a respeito do homem de bem.
  Diz ele que o homem de bem é aquele que estuda suas próprias imperfeições e trabalha incessantemente em combatê-las.
Todos os esforços emprega para poder dizer, no dia seguinte, que alguma coisa traz em si de melhor do que na véspera.

Fonte: R.M.E.

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